terça-feira, 10 de outubro de 2017

EloahR - um concerto sobre autonomia - por Tacila Mendes




05/10/17, Teatro Municipal de Ilhéus. Diante de uma plateia curiosa, Eloah Monteiro entra no palco recitando “eu sou preta, mãe solteira, nordestina...”, versos de uma de sua composições. Os gestos que interpretam suas palavras são firmes e calculados; termina com um  “zere a culpa” conclusivo. Pega seu violão.

Apesar de a maioria dos presentes já conhecer seu potencial vocal das rodas de samba, dos palcos ‘criminosos’ de rock’roll, dos dedilhados da bossa nova, seu show autoral estava para apresentar seu próprio léxico musical, fruto das suas referências estéticas, sonoras e de vida. Ela estreava sua autonomia.

Vestida num macacão azul que completou o figurino agregando acessórios vermelhos, me lembrou as paletas de algumas pinturas de Miró. Poderia ter perguntado a Roney George, diretor artístico do show, de onde tirara a ideia, mas vou parafrasear o clichê: eram as tropicais “cores de Frida Kahlo, cores de “Almodóvar”. Feminista, Eloah também já se mostrara, bem antes, sensível à estética e discurso da mulher superlativa, a Drag. Misturei estas informações num copo e assim as bebi.


No palco nu, sem coxias, havia alguns poucos instrumentos musicais que revelavam uma presença posterior de convidados no palco. Com essa nudez espacial, a iluminação ganhou protagonismo na narrativa criada em parceria com Roney e Izadora Guedes, e era dela a função de não deixar os olhos do público fugirem para aquele  fundo infinito e seus detalhes: a escada para os camarins, o piano, e até algumas pessoas da equipe, que poderiam estar mais camufladas.

Daniel Puig, diretor musical, imprimiu intervenções eletrônicas as canções. Em alguns casos, encaixou-se na música tal qual um som de vitrola, trazendo aquela mesma atmosfera. Mas o foco era mesmo a cantora e o que diziam suas músicas. Apesar de não ser necessariamente uma violonista, ela apostou num show sem uma banda, entendendo o que há de mais solo no conceito de concerto.

Eloah cantou para Oxalá, cantou a possibilidade de voar sem sair do lugar, perguntou se já vimos sambista/machista fazer blues, falou do amor de pescador – esta música foi, para mim, uma das composições mais redondas. Criticou o desafiante cenário para quem vive de arte: “um quilo de tomate vale mais”. Passeou pelo que conhecemos como MPB, e também por marchinha, samba, rock, ijexá, bolero - por vezes, mais de um gênero numa música só. Somando às treze autorais, tocou ainda “Dindi”, de Tom Jobim, e trouxe sua interpretação de “Oh, darling”, dos Beatles.

E cantou para as Iabás, chamou as meninas. Atendendo ao chamado, elas vieram: Izadora Guedes e Ticiana Belmonte, que assumiram a percussão. Num dos pontos altos do show, todas se afastaram da frente do palco e dos microfones, e fizeram uma roda tocando, cantando e dançando o bom e velho coco. Logo atrás daquela roda ancestral, o clássico piano do Teatro, até então escondido pelas cortinas de luz. Era uma cena típica do que bem somos nós brasileiros: transversais, sincréticos, plurais - erudito e/ou popular.

A cantora e compositora que estudou por anos num conservatório, trouxe suas raízes não só Africa, mas dos continentes, estados e parcerias de onde vieram a sua música. Empreendeu o próprio show na esperta tarefa de juntar amigos e talentos, agregando esforços e habilidades para a um resultado comum.

Se hoje artistas vêem-se desafiados a criar, produzir e distribuir eles mesmos suas criações e shows, ainda precisam surpreender com o que propõem ao público e buscar um lugar ao sol nas listas dos serviços de streaming de música na internet, ou nas quase inacessíveis rádios. Discussões mercadológicas à parte, no que cabe à criadora, Eloah mostrou tudo o que vem garimpando ao longo dos anos e, finalmente, o que elegeu para chamar de seu. 



Para não dizer que não falei de todas flores que colaboraram nesse trabalho eminentemente coletivo, confira a ficha técnica:


COMPOSIÇÃO, VOZ E VIOLÃO - Eloah Monteiro.
CENÁRIO E FIGURINO - Roney George.
DIREÇÃO ARTÍSTICA - Roney George.

DIREÇÃO MUSICAL - Daniel Puig.

CONCEITO E ROTEIRO - Eloah Monteiro, Roney George, Izadora Guedes.

MAQUIAGEM - Guto Pacheco.

PRODUÇÃO EXECUTIVA - Eloah Monteiro, Daniel Puig.

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO - Eloah Monteiro.

PREPARAÇÃO VOCAL - Julie Amaral.

PREPARAÇÃO CORPORAL - Sôanne Marry e Neide Rodrigues.

PERCUSSÃO - Ticiana Belmonte e Izadora Guedes.

FOTÓGRAFAS - Ana Lee, Izabella Valverde e Andreza Mona.

SONORIZAÇÃO - Gil Lucas.

ROADIES - Pawlista PDF e Alan Santana.

PARCERIAS - Jorge Baptista Carrano na Música "Dentro d'água"; Cabeça Isidoro na músicas

"Daninha do Largo", "Ressaca" e "Bichafobia".






Por Tacila Mendes
Comunicóloga, 31 primaveras. Transita nos bastidores culturais, às vezes no palco, às vezes na plateia. Mora em Ilhéus.

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