terça-feira, 24 de outubro de 2017

Porque não desvalorizar minha regência - por Maestro Márcio Medeiros


Ao atuar pela segunda vez em certa empresa administrativa do estado em que moro, vejo-me mais uma vez na posição de leiloar ao inverso (para menos) o valor de meu trabalho, pois a empresa opta pela contratação de regentes para seu coro através da modalidade de pregão presencial.

Pra quem desconhece a referida modalidade, ela impõe aos que aceitam estar frente à frente com colegas de profissão, alguns conhecidos e amigos, em rodadas de reapresentação de honorários cada vez menores, um buscando sobrepujar o outro, num embate que só finaliza quando todos menos 1 encerram seus “lances” e é contratado aquele que aceitou o valor mais baixo – independente de piso salarial ou valor de mercado. Uma outra vertente dessa contenda é o pregão eletrônico, que varia apenas em não encarar seu oponente, pois o embate ocorre via web.


Questionei aos setores responsáveis o motivo de ser exatamente este o modo de escolha do profissional e depois de tantas respostas vagas de que “no governo sempre é válido o menor preço”, devido as leis de licitação vigentes, salvo as exceções como Art. 60, inciso II, c/c Art. 23 da Lei nº 9.433/2005, descobri que a atividade de regência de corais, apesar de ser claramente artística é considerada pela administração desta instituição não como atividade complexa e sim como atividade comum, comparado à material adquirido ou serviços de execução básica. Pois bem; Venho então através deste, não como recente maestro do coral de uma instituição estatal e sim como profissional da atividade de regência coral, bem como pessoa de frente do atual movimento nacional do real reconhecimento da profissão, buscando me fazer compreender sobre sua verdadeira extensão.

Tal atividade para ser executada em instituições públicas já requerem uma formação de nível 3º grau – universitário – e isso é indiscutível. Porém, é necessário afirmar que tais conhecimentos vão além da formação musical. A mesma formação que é exigida incita seus concluintes à buscar experiencias no convívio/contato com o ser humano, que é sua 2ª matéria prima de trabalho; a 1ª seria sua voz, porém é de conhecimento e aceitação geral a afirmação que a voz de um individuo apresenta o reflexo de seu emocional.

A implantação/manteneção de um coral numa empresa está ligada à 2 diretrizes:

- Qualidade de Vida;
- Representatividade.

Citando a 1, o funcionário utiliza o coral para:
- Realização pessoal;
- Socialização;
- Autoestima;
- Aprendizado;
- Relaxamento do cotidiano,

Por isso sua participação está atrelada à sensação que esta atividade lhe proporciona. Um regente que busca apenas o resultado sonoro por vezes tende a pressionar e exigir dos participantes um resultado pessoal que este ainda não atingiu e isso pode ocasionar desistência. Além disso, má escolha de repertório – fora dos contextos da instituição ou que venha a atingir negativamente seus participantes – desmotiva a adesão e fidelidade dos coralistas.


Ao citar a 2, é necessário lembrar a demanda de apresentações solicitada por uma instituição, seja ela de ensino, religiosidade, produção ou administração. Por isso, o grupo precisa estar preparado para atender tas demandas. No caso do de certas instituições que apresentam mais pomposidade, as demandas não são apenas em quantidade. É primordial atentar pela qualidade de tais apresentações, no que se refere à:
- Escolha do repertório;
- Escolha/criação de arranjos à 4 vozes (ou especificações do grupo em questão);
- Preparação do grupo;
- Análises e ajustes de problemas sonoros;
- Análises e ajustes de problemas pessoais.

Comentando este ultimo: SIM, é correto afirmar que a não presença pontual de coralistas é um problema que precisa ser resolvido pelo maestro/regente da instituição, visto que o mesmo foi contratado para que hajam boas apresentações, independente se os problemas ocorridos são de origem musical ou pessoal

Por todas essas pontuações afirmo que o trabalho do maestro/regente numa instituição na qual o coral não é profissional (isto é, os cantores não recebem pagamento regular para exercerem atuarem exclusivamente como cantores) vai além do de preparação de cantores. Para tal, apresento análise do I CONGRESSO NACIONAL DE REGENTES DE CORAIS, ocorrido em Vinhedo/SP nos dias 6 e 7 de junho de 2017:

ATIVIDADES DO REGENTE/MAESTRO
Preparação de grupo de artistas executores (cantores ou instrumentistas)
Gestão de Pessoas
Representatividade
Mediação entre direção e coralistas
Atividade de Qualdade de Vida
Professor


Tal atividade não pode ser comparada à serviços de construção civil, onde cimento é cimento, gesso é gesso. Também não pode ser comparada à oferta de estagio, onde quem vem atua como orientando e não formador/orientador de ideias. Não pode ser como compra de material, pois a qualidade do serviço não é a durabilidade da matéria prima.

A própria instituição que é autorizada formar este profissional (as universidades), afirmam por meio de publicações oficialmente autorizadas que o regente/maestro é um líder, e como tal não pode ser analisado apenas pelo preço e sim por sua experiência e competência, sendo um ultraje sua submissão ao processo de pregão, seja presencial ou eletrônico.

É necessário ressaltar que de todos as instituições públicas de um estado, nem todas buscam contratação de regentes/maestros pela modalidade de pregão, alegando que o TCE fiscaliza e pune, caso não seja dessa maneira. Então quando outras estatais agem de forma diferente e não são punidas, eu Indago então se estas não modificaram a forma como reconhece o trabalho do maestro.

Uma instituição que preza por seus lideres, sejam esses concursados (análise de conhecimentos a fim de selecionar os melhores) ou indicados (devido a confiança nos nomes para uma melhor condução) precisa entender que a escolha de um profissional de liderança deve ser contratado com observações além do menor valor de remuneração, principalmente se este vai conduzir um grupo de seus atuantes este grupo irá representar  instituição.

Talvez também seja o momento para que os setores responsáveis busque a coordenação e/ou participantes antigos dos corais a fim de questioná-los sobre o histórico do grupo com os regentes que estiveram à sua frente e os resultados obtivos com cada um deles. Imagino que a variedade de resultados e de bem-estar seja grande. Caso o parecer deles injustifique meu embate, calar-me-ei sem mais argumentações.

Lembrando que meu objetivo com este artigo não tem minha recontratação como objetivo primaz e sim a mudança de aceitação da administração de instituições públicas quanto a atividade de regência de corais ser atividade comum passar a ser considerada atividade complexa e, sendo assim, acontecer também uma mudança em sua modalidade de contratação.


Marcio Medeiros
Regente de corais, Diretor Musical, Arranjador e preparador vocal, atuante desde 1996 no cenário canto coral da Bahia. Estudou Composição e Regência na Universidade Federal da Bahia e atualmente é licenciado em música pela mesma instituição. Aprimorou-se em cursos internacionais de regência coral. Foi aluno do maestro Franklin Coolgarth, em Boston/EUA ao estudar a técnica vocal da american Black music. É o responsável pelo projeto Sunset Singers - formação de cantores profissionais, e suas pesquisas apontam para a Sinestesia Musical – A emotividade criando sons. Ministra workshops em eventos de canto-coral por todo país.



Publicações das quais o maestro teve embasamento:
REGÊNCIA CORAL: ORGANIZAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DO TRABALHO EM CORAIS
RITA DE CÁSSIA FUCCI AMATO
Doutora e mestra em Educação (UFSCar), especialista em Fonoaudiologia (UNIFESP) e maestrina (UNICAMP). Professora da Faculdade de Música Carlos Gomes. E-mail: fucciamato@terra.com.br
JOÃO AMATO NETO
∗∗Professor titular do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), professor e consultor da Fundação Vanzolini. E-mail: amato@usp.br
LIDERANÇA, SOLUÇÃO DE PROBLEMAS E GESTÃO DE PESSOAS Em uma concepção abrangente, a liderança pode ser entendida como um importante componente para o desenvolvimento de qualquer trabalho envolvido com recursos humanos, sendo essencial para o desenvolvimento das atividades de um grupo e para a obtenção dos resultados almejados. Essa habilidade é, assim, fundamental para a condução de um coro, que na maioria das vezes apresenta-se como um grupo bastante heterogêneo, já que seus integrantes podem possuir diferentes níveis de conhecimento musical, de formação intelectual, de atuação profissional; assim como podem pertencer a classes sociais distintas e também a diferentes faixas etárias. Com relação à regência coral, sua importância é evidente e tratada por diversos autores como um ponto crucial para a condução do grupo (McELHERAN, 1966; ZANDER, 2003; ROCHA, 2004; OLIVEIRA e OLIVEIRA, 2005).
McELHERAN, Brock. Conducting technique for beginners and professionals. New York: Oxford University Press, 1966.
ROCHA, Ricardo. Regência: uma arte complexa: técnicas e reflexões sobre a direção de orquestras e corais. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2004.
ZANDER, Oscar. Regência coral. 5 ed. Porto Alegre: Movimento, 2003.
OLIVEIRA, Marilena de; OLIVEIRA, José Zula. O regente regendo o quê? São Paulo: Lábaron, 2005.
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Publicação de Milton Campos Junior, 10 de setembro de 2015, REDAÇÂO A12
O regente tem um importante papel que é educar os cantores do grupo coral. Isso vai muito além dos gestos de regência que é conduzi-los extraindo um bom resultado vocal de cada cantor; ensinando corretamente sem danificar a saúde vocal dos cantores; Trazendo com entendimento e entusiasmo entre o grupo harmonia e prazer em cantar. O regente de um coral deve atuar com a perspectiva de realizar um trabalho de educação musical dos integrantes de seu grupo.

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