segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Diretora baiana vence quatro prêmios em Festival de Cinema em Pernambuco


No dia 11 de agosto, foram anunciados os vencedores do Festival de Cinema de Triunfo. Dentre os ganhadores da noite está o filme “Onze Minutos”, de Hilda Lopes Pontes. Realizado pela Olho de Vidro Produções e filmado completamente em Salvador, o curta-metragem foi agraciado com prêmios em quatro categorias: Troféu Cineclubista de Melhor Filme para Reflexão; Melhor Roteiro; Troféu ABD-APECI de Melhor Filme; e Menção Honrosa pelo Júri Popular.
A ideia surgiu para cineasta quando ela se deparou com dados alarmantes sobre a violência contra a mulher no país. Em 2017, o Datafolha divulgou uma pesquisa revelando que 503 mulheres são vítimas de violência a cada hora. Agressões de diversos tipos, que vão da verbal até a física, persistem. Os números revelados pelo instituto, como o fato de 1,4 milhões de moças sofreram espancamento ou estrangulamento em 2016, chamaram a atenção de Pontes.


Estas informações impactantes entram na narrativa de maneira sutil, mas que foram notadas pelo júri da ABD-APECI (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco/Associação Pernambucana de Cineastas). Na justificativa para a escolha de “Onze Minutos”, os jurados descreveram como eles viram as estatísticas na tela. “O filme 11 minutos se destaca por atuações precisas e maestria na representação dos simbolismos do machismo. A direção de Hilda Lopes Pontes explicita a misoginia cotidiana a partir da representação do agressor, não como um monstro, mas como um homem comum, que nos deparamos em casa, na rua, no trabalho, convidando os homens comuns a refletir sobre suas práticas machistas.”
 Com Rafael Medrado (A finada mãe da madame) e Laís Machado (Obsessiva Dantesca) no elenco,  Pontes deseja demonstrar com seu curta a fragilidade da segurança que a mulher possui e como esta pode ser quebrada a qualquer instante por um homem. Esta força trazida no roteiro foi um incentivo para o desejo dos atores em participar da obra. “Desde que eu fui chamado para fazer o filme eu fiquei encantado com o texto, pela potência do que ele fala, pela estrutura, pela situação, por tudo”, conta Medrado.
O próximo projeto de Pontes é uma dramédia musical intitulada “Em Cima do Muro” e começa a ser rodado em setembro deste ano. Para maiores informações sobre todos os trabalhos da Olho de Vidro, acesse o site www.olhodevidroproducoes.com.br ou a página no Facebook “Olho de Vidro Produções”.

ENTREVISTA COM A CINEASTA HILDA LOPES PONTES

1. Como surgiu a ideia do filme?

Quando terminei de montar meu curta Estela, eu tive a ideia de escrever “Onze Minutos”. Quando percebi, havia escrito sobre mais um homem que parece bonzinho, mas, na verdade, é mais um daqueles homens que se trajam de boas pessoas para esconder seus comportamentos abusivos. Há uma intenção de minha parte de entender como superar esses homens, tanto verdadeira como metaforicamente.


2. Qual a importância do curta para o mercado e para a sociedade?

Acho que é justamente o fato de tentar elucidar que existe muito abuso ainda e os homens que o fazem são vistos como boas pessoas na sociedade. Eles são justamente os que mais estupram, acabam com o psicológico e o físico de muitas mulheres. A maioria dos estupradores não são aqueles do beco na rua escura. São os maridos, os amigos, os conhecidos. As ameaças masculinas estão perto das mulheres, destruindo a autoestima, a felicidade e o bem estar de todas nós. Pode ser o pai que faz pouco da filha e a persegue tratando-a como inferior, pode ser aquele amigo que se aproveita da amiga bêbada ou ainda o marido que não é companheiro com a mudança do corpo e da mente de sua mulher grávida.

3. Quais as suas inspirações para a realização dos curtas?

Para Onze minutos eu busquei referência de filmes que se passam dentro de um carro, como Locke e Colateral. Também me inspirei na atmosfera de Taxi Driver. Para a temática do estupro tenho três fortes referências: Irreversível, O silêncio do seu e o curta 15 de agosto. São obras que mostram o estupro de maneira crua, sem erotizar uma violência como muitos filmes fazem.

4. Como você constrói a personalidade das protagonistas?

A minha busca é a tridimensionalidade das personagens. Eu tento não deixá-las tipo para que a compreensão do espectador esteja para além das caricaturas de bem e mal. 

5. Como as pessoas, artistas ou não, também podem contribuir para a causa?

Acredito que a união das mulheres faz muita diferença. Creio que os homens gostam de atiçar a rivalidade feminina, a briga das mulheres por conta de um homem, justamente porque quando estamos juntas chegamos muito mais rápido em nossos objetivos. Seja por algo fútil, seja por uma luta importante. As mulheres juntas possuem um poder muito especial e, eu acredito, que quase cósmico de mover coisas impossíveis, de transformar a sociedade da maneira menos bélica possível. Resta aos homens, admitir o privilégio que têm, parando de afirmar coisas como "somos todos seres humanos". Quando o machismo for admitido o primeiro grande passo dos homens será dado, o passo de admitir a condição que nós mulheres vivemos.

0 comentários:

Postar um comentário