segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

20 anos em três atos: sobre o show ‘Amor, Política e Ozadia’, de Cabeça Isidoro - por Tacila Mendes


Foto: José Nazal
Dizem que a música de um lugar reflete sua cultura, sua forma de viver. Então, eu vou falar de um recorte da música que embala mitiês de Ilhéus, esta terra conhecida pela literatura, mas que teima em se destacar por otras cositas más, agarrando, com o seu visgo, os mais sensíveis ao estilo de uma cidade de médio porte, onde todo mundo se encontra na rua, na praia ou no bar.
Em seis de setembro deste ano que termina hoje, o multiartista Cabeça Isidoro subiu ao palco do Teatro Municipal de Ilhéus, com seu coração acelerado e outro pintado no cenário, para gravar o DVD ‘Amor, Política e Ozadia’, celebrando os seus 20 anos de carreira, à frente dos ‘Inflamáveis’, sua banda neste projeto.
O início da trajetória de Cabeça, segundo ele, teria sido em uma esquina do caminho 22, da Urbis, onde encontrou os companheiros que formariam a banda Dr. Imbira e começaria a saga da qual não sairia ileso, mas, na verdade, se tornaria seu ofício. Quem viveu o fim dos anos 90 e os anos 2000, e frequentava o fundo da então Casa dos Artistas, hoje interior da Barrakítika – portanto o local continua pura boemia -, vai se lembrar de shows como os do ‘Sábado, Sim!’, evento de música que levava para aquele palco as bandas da cidade e região. Quero falar sobre esse projeto depois, mas por ora, o que trago aqui é minha lembrança de Cabeça com a sua cabeleira e o seu inseparável violão, cantando no  Dr. Imbira, com ativa participação do coro-público presente. Sim, a banda tinha/tem fãs e, mesmo que as músicas não tocassem nas rádios e nem nas ainda inexistentes plataformas digitais, elas se fixavam na cabeça da galera. Então, se você se depara com canções capazes de sobreviver ao tempo e às dificuldades de acesso e, mesmo assim, caem no gosto do público, preste atenção nelas.
Bom, eis que quase duas décadas depois, passando por bandas como Improviso Nordestino, Mulheres em Domínio Público, Crime Organizado, pela direção musical e criação de trilhas do Teatro Popular de Ilhéus, Cabeça toma fôlego para capitanear sua carreira solo, e cria o show ‘Ensaio sobre uma tal democracia’, bem no meio da turbulência política brasileira do inolvidável ano de 2016. As batidas de panelas da classe média inspiraram o compositor de maneira que ele foi às ruas conversar com as pessoas só para tentar entender ‘qualédemermo’ daquilo tudo, já que ele mesmo não se permitiria distância temporal suficiente para compreender os argumentos anti-isso-tudo-que-está-aí, que se proliferavam nas ruas. E compôs, em poucos meses, o show inteiro, estreando-o em outubro daquele ano. Cabeça é desses que têm para lá de quatro centenas de canções compostas, talvez por se envolver visceralmente naquilo que acredita e vive, e não sossegar enquanto não expurgar tudo em versos e refrões.
Então, chegou o tempo de celebrar o ciclo e, para isso, ele bem que tentou selecionar o repertório do novo show, mas dividiu a tarefa com os amigos, já que é duro dizer quais das filhas-composições vão para a lista das Top 20. Além disso, também compôs canções inéditas. Assim, nasceu ‘Amor, Política e Ozadia’, que relembra sua trajetória, com direito a participação do pai, seu Xanda, cantando o amor junto com ele, talvez em agradecimento pelos vinis apresentados na infância, e que se tornariam suas predileções e influências, especialmente, no que ele se refere às “músicas de amor”.
Foto: José Nazal

O repertório do show em questão é dividido em três atos, sai da seara íntima do artista, dos bares, vielas e becos, e assume temas da agenda atual. Com a irreverência que lhe é peculiar e se expondo em seu lugar de fala de homem cis, Cabeça fala de amor, heteronormatividade, política e suas insanidades, mainstream musical, liberdade sexual e assédio vivido pelas mulheres – não sem causar burburinho. Daí se presume o motivo do nome do show. É válido lembrar que o show é autoral, e que as músicas mexem com hábitos e condutas conservadoras que ainda existem nesta Ilhéus, e que inspirariam Jorge Amado por alguns motivos que são os mesmos de há cem anos. Cabeça é ilheense, portanto, vivencia essa conjuntura cotidiana, por vezes, contraditória.
Bom, atentando aos três atos que resumem as duas décadas de trajetória, arrisco dizer que Cabeça vai sempre levar na alma o rock'n’roll do Dr. Imbira - inspirado outrora por Led Zeppelin, Raul Seixas e os ícones da MPB dos vinis do pai -, e também da banda Crime Organizado, que teve vida curta, porém expressiva.
Mas, nem só de rock é feito o seu repertório. No meio do caminho, Cabeça começara a tocar um dedilhado diferente e sertanejo, sem saber direito o que era. Nessa aproximação com o violão, certa feita escutou Elomar e entendeu que 'era aquilo'. E ele passou a namorar o posto de trovador contemporâneo, talvez impulsionado pelo ofício de composição de trilhas quase imagéticas para cenas de teatro épico, e pela experiência com a banda Improviso Nordestino. Esta sua face está presente no segundo ato de ‘Amor, política e Ozadia’. O fato é que esse caldo todo ganha um tempero, já que, o mesmo cabra que chuta o ar embalado pelo seu rock quase setentista, é o que dramatiza trovas sentado sozinho com o seu violão.
Por último, devo dizer que conheço Cabeça há alguns anos e percebo que a sua visceralidade conviveu com a disciplina que exige um show dirigido (pela atriz e diretora Iara Colina), pensado em detalhes (com arte de Roney George e Shicó do Mamulengo) e com inserções de audiovisual. O fato de ter estado em cena diversas vezes como ator também o ajudou a ser mais flexível no palco, não se prendendo ao violão o tempo todo. A própria gravação de um DVD e todas as peculiaridades desse processo, é um sinal de que ele busca se adaptar às tecnologias deste tempo para dar vazão ao seu trabalho. Logo ele, que não é lá muito chegado a celular, postagens em redes sociais ou ativismos puramente virtuais, inaugura para si um tempo de se desafiar, lançando-se nas plataformas e disponibilizando o show no Youtube (em janeiro de 2019).
Mesmo que Cabeça não tenha frequentado programas televisivos dominicais, vale a pena assistir ao show, não somente porque ele faz parte de um recorte pujante da cena musical autoral, mas por ele dizer que “nem só de Jorge Amado vive Ilhéus, outros Jorges já nasceram”. Seria pretensão ou vale o seu clique no vídeo? Quem assistir e ouvir, saberá. 

Tacila Mendes – Comunicóloga, pós-graduanda em Gestão Cultural pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Atua na área da comunicação e da cultura há 10 anos. É uma das criadoras e cantoras da banda Mulheres em Domínio Público. Tanto quanto possível, é o “alguém que precisa escrever para registrar o que está acontecendo na cena cultural de Ilhéus”. 






- Data: dezembro 31, 2018 / Por: Antônio Melo | Comente!  Edit

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